“A repressão no 68 não era uma cousa branda, senão um dispositivo que se ia avultando na mesma medida que cresciam os movimentos de protesta”

“Suicídas” mortos pola falta de morada na Grécia, imigrantes também assassinados polo abandono no deserto ou no mar, moradores de rua em Vigo, pessoas expulsas das suas casas polos bancos… Os protagonistas de ‘Palavras a Espártaco’ são os deserdados, os subordinados. E os deserdados dos titulares da imprensa atual (o livro é de 2015, mas a situação é a mesma), aparecem nos poemas ao lado dos heróis e mártires da História e da mitologia, da antiguidade até hoje. Suponho que é uma maneira de dizer que a exploração, o sofrimento e o abuso de poder são os mesmos, mália pensarmos que vivemos num mundo “civilizado”. É assim? Por que essas conexões entre a atualidade, a História ou a mitologia?

Com efeito, como antes sinalei, qualquer sociedade disposta em camadas gera diferenças e, depois, sofrimento, depauperação e, no limite, morte. Embora o Poder e os seus os alto-falantes dizerem que a crise se acha em caminho de ser ultrapassada, em realidade as diferenças sociais aumentam e o projeto do capitalismo é instalar na sociedade uma crise contínua porque com a mesma, como se pode ver, os benefícios da banca e outros setores seguem a medrar. 

“Embora o Poder e os seus os alto-falantes dizerem que a crise se acha em caminho de ser ultrapassada, em realidade as diferenças sociais aumentam”

Sobre a convivência no mesmo texto de heróis e mártires da História e da mitologia, não deixa de ter interesse o feito de a crise atual nascer na Grécia, nesse lugar onde, segundo afirma o lugar comum, nasceu também a nossa civilização. Neste sentido, resultava tentador e, acho, mesmo didático estabelecer paralelismos no que a heroísmo e a sofrimento se refere entre os antigos heróis, e heroínas, gregos e os atuais. A Grécia, um pais pequeno, combateu, derrotou e foi derrotado polo Persa e os topónimos de Maratona, Salamina ou as Termópilas ficam na história e, dum ponto de vista mítico, poético, é possível compararmos a Grécia atual enfrentada à troika e à União Européia e haverá topónimos, como a Praça Syntagma que ficarão para sempre na memória da resistência e do enfrentamento com os poderosos. 

A Grécia clássica forneceu-nos de heróis incontestáveis, como Ulisses, Penélope ou Aquiles, mas também de personagens caracterizados pola sua, praticamente infinda, capacidade de sofrimento, na esteira dos heróis que atualizam cada dia a dor, como são os casos paradigmáticos de Prometeu ou Sísifo. Todas estas circunstâncias operavam em prol de estabelecer relações entre a antiguidade e a atualidade gregas. No que atinge a Espártaco, a sua figura, representando os escravos, os deserdados dos que ti falavas, que ousa desafiar a mais potente maquinaria bélica na altura, já alcançara valores míticos, em primeiro lugar pola reconstrução biográfica feita —no cárcere, paradoxos do destino— por Howard Fast e, mais tarde, no cinema, por Stanley Kubrik, para além da projeção da sua figura em distintas pólas da arte, como a música ou a escultura, ou da política, de cujo exemplo a Liga Espartaquista é um caso de renome. 

Espártaco é neste livro símbolo da rebelião dos deserdados. Em ‘1968’ é o movimento social antifascista a força que se opõe ao Mal, que em “Palavras a Espártaco” também aparece simbolizado: o Rata, o Vampiro … Nesse sentido, mesmo às vezes pode até parecer que “Palavras a Espártaco” é um livro mais otimista, no sentido de confiança no potencial da Rebelião, que ‘1968’…. Ou talvez seja a minha impressão, suponho que por causa das atmosferas opressivas, muitas vezes perto do pesadelo, que recria ‘1968’. De qualquer forma, quiseste transmitir uma sensação de confiança na revolta?

Começarei por isto último: partindo, como argumento preliminar, que, para mim, a forma é a que articula o meu compromisso ético com a literatura, eu sempre tento transmitir na minha escrita, seja esta a que for, poética, narrativa, ensaística, um conjunto de idéias, que mudam de intensidade ou importância segundo os casos e entre as quais sobranceiam: a necessidade de confiança nas próprias forças, a determinação na procura dum objetivo e, como conseqüência deste, a posta em prática do que se poderia chamar a ética da não cessão e a possibilidade, sempre, de vitória num confronto, seja este do tipo que for. 

“Penso que a força da gente é infinita e que se não se concretiza numa sociedade mais livre, mais justa ou mais igualitária é quer porque a coletividade não está convencida deste feito, quer porque os indivíduos põem por diante princípios egoístas”

Penso que a força da gente é infinita e que se não se concretiza numa sociedade mais livre, mais justa ou mais igualitária é quer porque a coletividade não está convencida deste feito, quer porque os indivíduos põem por diante princípios egoístas e aplicam o célebre axioma de “o que venha detrás que arree”. Dito isto, tenho de reconhecer que os dous títulos dos que me falas, ‘Palavras a Espártaco’ e ‘1968’ são mui diferentes na sua formulação por motivos não tanto de texto como de contexto. 

“Palavras a Espártaco’ é, essencialmente, um livro sobre a crise, a dor e a morte causadas por assassinos de luva branca e, polo tanto, reflete sobre a contemporaneidade, sobre o instante no que se está escrevendo.”

O primeiro é, essencialmente, um livro sobre a crise, a dor e a morte causadas por assassinos de luva branca e, polo tanto, reflete sobre a contemporaneidade, sobre o instante no que se está escrevendo. Um livro, segundo comentávamos há pouco, que começa, não por acaso, em Grécia, no desfiladeiro das Termópilas e termina avisando que o “Persa ameaça de novo” enquanto Espártaco, o fio condutor do discurso poético, caminha entre corredoiras, carvalheiras, peliqueiros, castros ou cruzeiros, quer dizer, sem sombra de dúvida, entre as terras da Galiza. É, como digo, essencialmente um texto, como se sinala no posfácio, norteado pola ira, a raiva, o ódio e o desprezo, que opta, formalmente, polo verso clássico alexandrino que se mantém da primeira à derradeira linha, querendo fornecer uma idéia de unidade, a qual se combina com a de universalidade, alicerçada nos quase 250 topónimos, de distintas geografias e épocas, que aparecem no texto. Um texto cuja redação demorou pouco tempo, uns sete meses, de não demasiada extensão, umas 6.000 palavras e de não excessiva complexidade. 

Pola sua parte, ‘1968’ é um texto que rumina (emprego este termo intencionadamente) e debulha feitos ocorridos há meio século, em plena ditadura, feitos que vivera quem escreve e que operaram uma transformação profunda no seu interior e que se redigem, isto é importante, desde o passado que é, naquela altura, presente. Trata-se dum texto que combina poemas “strictu sensu” com poemas em prosa e textos estritamente narrativos, onde se superpõem escritas que lembram crónicas com outras de natureza lírica e mesmo algumas de feição quase filosófica que, por vezes, explicam distintas unidades do próprio texto, num exercício metapoético, um texto cuja redação demora mais de três anos e cuja extensão se situa por volta das 20.000 palavras. Para além do dito, existem as notas de rodapé que enviam a textos originais, fotografias, reportagens fílmicos, fragmentos de filmes, citações variadas, todo o qual converte ‘1968’ num texto mais complexo, que alguém caracterizou de ‘apos-moderno’. 

Não sei se ‘Palavras a Espártaco’ é um livro mais otimista. Imagino que isso dependerá das distintas subjetividades quando se achegarem à sua leitura. Estou de acordo contigo que existem em ‘1968’ atmosferas opressivas, perto do pesadelo, concretizadas em situações sonolentas como aquelas onde o autor se identifica com personagens de Kafka, ou aquelas noites nas que espera, com angústia, a visita da Brigada Político-Social franquista ou quando, concretizada já a sua detenção, se acha numa cela, provida duma janelinha que periodicamente os policias abrem, fazendo que se sinta observado por olhos entomólogos. A questão basilar é que a ditadura construiu essa atmosfera de Terror, concebida, naturalmente, para as pessoas que se opunham a ela. 

Também comenta Xabier Paz que talvez em ‘Palavras a Espártaco’ quisesses engadir claridade com respeito aos poemários anteriores. Nos versos há monarcas caçando elefantes, dignitários a passearem em iates com narcotraficantes, corvos do Vaticano, curas violadores, presidentes espanhóis criadores de guerras … Assim, o mal é um símbolo, mas também é incorporado por personagens muito reconhecíveis. Foi uma tentativa de buscar claridade, ou não necessariamente?

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Como che comentava antes, ‘Palavras a Espártaco’ é um texto que nasce do ódio, da ira e, em certo modo, da urgência e da necessidade expressiva criada por um período limite, por uma era que, do meu ponto de vista, mostra o esgotamento económico, político, social, cultural, ético e estético do capitalismo, sem olharmos uma perspectiva de mudança, de substituição do modelo. Isto último para mim não constitui obsessão nenhuma, porque os trocos, historicamente, não avisam, aparecem sempre sem serem esperados e são de qualquer natureza, agás a esperável. 

“Palavras a Espártaco’ é um texto que nasce do ódio, da ira e, em certo modo, da urgência e da necessidade expressiva criada por um período limite”

Se me deixas fazer uma parêntese, mais bem o que a mim me preocupa é a posição duma fração mui ampla da esquerda que, até onde eu chego a ver, renunciou a reconsiderar a situação atual do capitalismo e a procurar, dentro da tradição histórica e de luta da própria esquerda, soluções para uma sociedade que mudou de maneira radical nos últimos cinqüenta anos e para a que, porém, seguem a se formular propostas antigas de mui escassa efetividade. Neste sentido acho de grande interesse um artigo de há algum tempo de Xavier Campos que recomendava a leitura do livro de G. Lakoff, “Politica moral”. 

Independentemente da surpresa que hoje em dia causa que um político recomende a leitura dum texto político (cousa que deveria entrar no território do habitual) fiquei impressionado pola referência a Lakoff. Com efeito, Lakoff é um lingüista (a propósito, com um livro seu traduzido ao galego, “Non penses nun elefante”) que nos lembra feitos de importância: primeiro, como esse amplo complexo movimento norte-americano que vai da direita à extrema direita e que abrange do Partido Republicano á National Rifle Association e do Tea Party ao Ku Klux Klan, compreendeu, há mais de meio século, como as classes populares e trabalhadoras agem e votam, numa grande medida, em contra dos seus próprios interesses e, segundo, como fatores emocionais como a tradição, a família ou a identidade, quer dizer os territórios simbólico e imaginário, constituem uma parte essencial da escolha e ação política destes mesmos setores. 

“O que a mim me preocupa é a posição duma fração mui ampla da esquerda que, até onde eu chego a ver, renunciou a reconsiderar a situação atual do capitalismo e a procurar, dentro da tradição histórica e de luta da própria esquerda, soluções para uma sociedade que mudou de maneira radical nos últimos cinqüenta anos”

Esse pensamento, essa dedicação à construção de “relatos” que com tanta habilidade constrói a direita (porque leva meio século estudando a sua construção) não tem, do meu ponto de vista, uma resposta ajeitada desde a esquerda, cujas receitas levam sem atualização décadas. Afastei-me da tua pergunta e volvo a ela. Não é que eu desejasse engadir claridade, senão que a minha subjetividade interagindo com uma situação social na que estavam a estilhaçar muitas cousas (o livro leva um subtítulo significativo, ‘Diálogos para um tempo de fratura’) produziu um resultado que, como sinala Xabier Paz, é mais claro. Penso que isto demonstra, mais uma vez, a fusão, a solidariedade existente nos textos entre forma e conteúdo. O conteúdo pareceu exigir-me essa forma e às avessas. 

Quanto à forma, em ‘Palavras a Espártaco’ há um claro predomínio dos versos longos construídos por acumulação, por encadeamento de estruturas sintáticas que se repetem e produzem no leitor um sentimento não só de desacougo, mas de abafamento, de angústia … É como uma tentativa de bater no leitor para espertá-lo, por uns instantes, do consentimento da injustiça, à qual também contribui. Essa escolha desse jeito de escrita tem a ver com isso ou não? 

Como che comentara antes, formalmente ‘Palavras a Espártaco’ está alicerçado sobre uma única forma métrica, o alexandrino, que percorre os quase novecentos versos que constituem o texto no qual, como ti insinuas, multiplicam-se os encavalgamentos. A permanência deste metro ao longo de todo o texto confere-lhe unidade, de tal maneira que se poderia considerar o livro um único poema no que, se desejássemos, poderíamos considerar diferentes apartados, constituídos polos distintos poemas. Esta opção também procura construir, não sei se vou ser quem de explicá-lo, um contraponto, desde a forma, ao conteúdo. 

“Tentei opor a um texto profundamente político uma forma, se me permites o jogo de palavras, profundamente poética, no sentido mais clássico do termo”

Quero dizer que tentei opor a um texto profundamente político uma forma, se me permites o jogo de palavras, profundamente poética, no sentido mais clássico do termo. Certamente, esta escolha também tem as consequências que ti enuncias: a repetição da fórmula alexandrina opera como uma ladainha —o qual, ao mesmo, tempo, fornece ao texto uma maior dose de narratividade— e possivelmente faça aparecer essas sensações de desacougo, abafamento e angústia das que falas. 

Mas, se voltas atrás a aqueles dias, a situação era exatamente geradora desses sentimentos nas pessoas que tivessem um mínimo de sensibilidade: suicídios diários não só na Grécia. A terceira parte do livro —Antro(to)ponímia da imolação— passa revista a uns poucos lugares onde a gente se suicidou, a milheiros, Atenas, Penhafiel, Vigo, Córdova, Basauri, Barakaldo, L’Hospitalet, Alacant, Porto Garibaldi, Torino, Nápoles, Valência, Las Palmas e muitos mais, pessoas mortas por enforcamento, por arma de fogo, esnafradas da janela para o chão, lançadas aos trilhos do comboio, eletrocutadas, carbonizadas como bonzos, enquanto Mariano Rajoy fumava charutos, Rato roubava e a Gürtel e a Púnica, a Pokemon e a Campeón iam a toda máquina. Perante esta situação, que outra cousa poderia refletir o texto? 

Um texto no final do livro explica que, em face da monstruosidade do Real, manifesta-se a incapacidade da palavra, e só fica a poesia (a metáfora), para expressar a raiva. Poderia ser um resumo do que é toda a tua poesia e não só deste livro?

Tem-se dito muitas vezes que a poesia é uma forma de dizer oblíqua, um tiro por elevação, um caminho indireto, como se a poesia tentasse a cotio a subversão do enunciado “a distância mais curta entre dous pontos é a linha reta”. Valente, a quem leio com paixão desde há quase meio século, afirma que ciência e poesia são duas maneiras de operar de maneira complementária sobre a realidade, sendo, portanto, a segunda um método de conhecimento baseado, contrariamente à ciência, num caráter único, não legislável, que pesquisa sobre a fugacidade e a não repetição, que não busca o enunciado de leis. 

No texto final que citas de ‘Palavras a Espártaco’ refiro-me ao Real, no sentido que Lacan dá a este termo: aquilo que se resiste a ser definido, simbolizado, representado e, com efeito, a realidade que gera este Real, que é monstruoso, só fica a possibilidade de exprimi-la por meio do poema. Isto no que atinge à situação que emerge a partir da queda de Lehman Brothers e da crise de 2008, que produz uma paisagem onde existem, num extremo, desesperação, pobreza, fome, suicídio e, no outro, seguindo a Naomi Klein e à “teoria do choque”, enriquecimento, ledice, expectativas de negócio e esbanjamento. 

“Em geral, a minha motivação essencial, em qualquer tipo de escrita, é a pesquisa, a aquisição de conhecimento, a procura da precisão, o esclarecimento de feitos e a expressão das cousas da minha contorna”

Dito isto, não penso que esta perspectiva de incapacidade da Palavra esteja presente em toda a minha poesia. Penso que, polas circunstâncias que concorrem na sua gênese e das que já falamos, é em ‘Palavras a Espártaco’, onde a ira é o motor que norteia a redação, o lugar onde se manifesta com maior claridade esta questão. Em geral, a minha motivação essencial, em qualquer tipo de escrita, é a pesquisa, a aquisição de conhecimento, a procura da precisão, o esclarecimento de feitos e a expressão das cousas da minha contorna, as que ficam perto de mim, fazendo-o da maneira o menos convencional possível. Essas são as minhas intenções, ainda que ignoro até que ponto sou quem de conseguir os objetivos que me proponho. 

 

 

https://praza.gal/cultura/a-repressao-no-68-nao-era-uma-cousa-branda-senao-um-dispositivo-que-se-ia-avultando-na-mesma-medida-que-cresciam-os-movimentos-de-protesta

 

 

praza.gal

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